quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ABZ do Rock - de Arnaldo Antunes


É muito difícil definir o rock hoje. Qualquer generalização classificatória parece insuficiente. O rock é um rio de muitos afluentes. Heavy rockabilly punk tecno hardcore pop rhythm and blues progressivo new wave psicodélico ye ye ye black metal and roll. Muitos grupos que se formam e/ou se extinguem diariamente. Fusões com reggae funk blues soul samba jazz. Nada disso satisfaz. Só uma coisa permanece e permite que continuemos chamando-o de. Uma coisa que não está no som. Está na sede.

O rock tem urgência de agora. Presentidade. Vitalidade que assassina a memória. Por isso é tão difícil catalogar. Dicionarizar. Compartimentar.

Ao mesmo tempo em que essa impossibilidade se exibe, sentimos que há uma tradição a não passar impune. Onde o passado vale por manter vivo o eterno presente. Só queremos que se faça uma cultura de rock no Brasil se for assim. Não para sedimentar, mas para clarear. Uma cultura que se mova com a mesma agilidade do seu objeto.

Acredito que esse álbum de retalhos verbetes lances insights drops, organizado pelo poeta Marcelo Dolabela, sobre o que houve/há por aqui, consegue isso. Não pelo poder paralisador da história, mas pela diversidade simultânea de seus agoras. Não pelo caminho em linha reta, mas pelo registro de seus desvios e fragmentos. Tentativa de fazer o possível, uma vez que o impossível é responsabilidade do som.

prefácio para o livro ABZ do rock brasileiro, de Marcelo Dolabela, Ed. Estrela do Sul, 1987

6. didascália


Foi Maria do Socorro Fernandes de Carvalho, a Só, que me falou a primeira vez em “didascália”. Comecei a entender o que era lendo “introduções” de poemas do século XVII que “explicavam”, “avisavam” o que iria acontecer, em seguida, no texto. Quando a canção Não quero te agredir apareceu, não tinha um título definido. Até que chegamos em De como um homem se zangou com a namorada e a mandou pra cidade ao lado da sua. Daí, começamos a falar de didascália... Meses depois, esse título virou uma trilha-avisozão-introdução-explicação para a canção “Não quero te agredir”.

Parceria com Quaresma, as vozes que cantam são do novo grupo vocal brasileiro “Monstros da Neblina” ou “Dragões da Névoa”, em homenagem ao “Demônios da Garoa”: Vazin, Quaresma e eu. Ou qualquer outra combinação na Validuaté: Júnior, Wagner e John; ou ainda: Vazesma, Johnago e Juniágner). Pode ser chamado também de “Trio Tapuru e Tu”, lembrando romântica e risonhamente do "Trio Irakitã", rs!

Um beijón, Só!

domingo, 6 de dezembro de 2009

5. a onda


Composição do Quaresma de batidas contínuas e cíclicas de círculos que envolvem o ouvinte movido de enlevação. O Vazin fez o rife da guitarratrilhademulhersensualdançandoemboateescuranopoledance. Sobre a faixa 5 deste disco, o poeta Manuel Bandeira disse:

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

Ainda ressalvou: “Vamos devagar. Não aderi à poesia concreta”. E proclamou uma eternidade: “... a poesia está em tudo - tanto nos amores quanto nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas".

4. plaina maravalha


Esse rockfunk é inspirado numa fotografia de Theda Bara – que vi num livro sobre paixão – e numa conversa de viagem indo para Oeiras com os amigos da Validuaté. Quaresma contava que ouviu do Seu Francisco Carvalho as expressões "maravalha" e "plaina". Ríamos e atraiu-me bastante as duas palavras conjuntas.

No Aurélio:
Plaina s.f. Instrumento de carpinteiro, para alisar madeira.
Maravalha s.f. Aparas de madeira; acendalhas; (fig.) bagatelas.
...não podendo assim ser ávida por outra coisa.

A composição saiu depois de juntar o lembrar de Theda Bara – a devoradora de homens dos anos 20 – Rilke e Tchekhov. Também homenagem a 3 amigos nossos: Mário, nosso colega misterioso; Dante Gomes Galvão, meu camarada historiador e cientista social de risada bonita que me apresentou “tataraneto do inseto”; e Beto, nosso amigo e desenhista rabiscante de artes gráficas-plásticas-visuais da Labigó!

3. eu só quero acabar com você


Mulher... Vingança! Fiz a canção ao cavaquinho, num quente domingo à tarde, com a presença da minha mãe, Neide. O enredo saía e eu pensava sobre os sentimentos no abandono. Arnaldo Antunes diria: “pessoa - pedaço de perda”. Mostrei a canção para minha mãe e perguntei: “E aí, mãe, falta alguma coisa”?! Ela disse: “põe aí pra quando ele for chegando na parada de ônibus, o ônibus dele tá passando... longe...”.

O rock pegou emprestado do samba sua tragédia de sangue. Mas a tristeza é aplacada pela vontade de vingança! Sobre a vingança, Jorge Mautner com Nelson Jacobina cantam: “A vingança é a origem das leis”. Vazin pôs peso de guitarra violenta, Júnior no baldrame harmônico, John endurece sem perder a ternura, Quaresma interpreta mui bem e Wagner imprime as linhas graves.

Traz uma cachaça pra ver se passa?! Cuidado! Se essa mulher tivesse no tempo do Código de Hamurabi... Olha o artigo 110 do Código:

110º - "Se uma irmã de Deus, que não habita com as crianças (mulher consagrada que não se pode casar) abre uma taberna ou entra em uma taberna para beber, esta mulher deverá ser queimada".

Deixa ver... Deixa ver... Podemos encerrar tratando da bíblia! Um provérbio bíblico alerta:

“É melhor morar com um leão e um dragão famintos do que com uma mulher malvada”.

sábado, 28 de novembro de 2009

2. o hermeto e o gullar


Validuaté ensaiava num quarto de velharia e escuridão da casa do Wagner. O Quaresma havia composto uma melodia e necessitava de letra. Intrometi-me e prometi-lhe o texto. Observávamos o pulso da musicalidade e Quaresma exemplificou: Thiago, é como o compasso desta frase: “macumbeira da cara de peixe”. Rimos e fiz questão de, não apenas pegar tal tempo, mas, com o fascínio, me apropriar da frasencanto! A história saiu rompantemente e resolvi homenagear figuras importantississíssimas da cultura brasileira: Hermeto Pascoal, Ferreira Gullar e Maria Bethania. Canção chamadora de atenção das partes empenadas e interessantíssimas dos corpos humanos. E questiona:

Quem já viu a orelha da Maria Bethania?! A pessoa não vê, mas existe! Orelha-crença?!

E, neste agora, um poema do Nicolas Behr:

nem tudo
que é torto
é errado

veja as pernas
do garrincha
e as árvores
do cerrado

Com os ensaios, o Vazin acabou começando a compor também no Validuaté! Vazin e Quaresma finalizaram a construção melódica. A integração é sem limites!

Foi-é demasiado empolgante termos a participação do Lirinha neste pedaço. Nosso encontro com ele aconteceu por meio da produtora Liana Santana. Nosso agradecimento, Liana! Mostramos a canção e o desejo da participação para o Jose Paes Lira – que gostou, agradeceu e prometeu presença! Tempos depois, sua voz foi gravada no estúdio "Todos os dias são bemóis", em São Paulo – SP, por Emerson Boy. Nosso agrade-cimento, Boy! Viva o Boy! Valeu! Criação + envolvimento + dedicação + Lirinha + nosso largo obrigados feito de contatos e fortes abraços.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

8. a lenda do peixe francês


Acabo de ver na tv que o produtor Herbert Richers morreu hoje. Acredito que alguém deve ter sentido o mesmo que eu: uma presença tão frequente e ao mesmo tempo tão longínqua; uma presença tão recorrente e... quem já tinha visto seu rosto?! Se essa situação fosse um filme, se chamaria "Meu querido estranho". Lembrei da banda Validuaté e de como tudo vai se encontrando nessa vida imprevisível: canção + dublagem + minha singela homenagem.

Algumas presenças no mundo encantam e inquietam e estranham a mente. Dentre outras, podem ser ímãs de atração: sapo, peixe, borboleta e abacaxi. E eis que senti o soturno de um peixe apaixonado por uma borboleta. Um é só água, a outra sempre vento. Dor e impossível que não cura nem com todo ungüento. Escrevi a letra da canção "a lenda do peixe francês" e a tristeza de tinta impressa. Na sua casa, Quaresma leu o texto, riu, gostou. Depois de curto tempo, ele pôs a melodia, fomos ensaiando com John, Wagner, Vazin, Júnior... Quaresma, depois de assistir ao filme Escorpião Rei, teve a brilhante idéia de chamar o grande ator e dublador IZAAC BARDAVID! ...Para interpretar um trecho da canção com sua voz de Tigrão e Esqueleto e Wolverine e tantas outras personas. Quaresma conseguiu o número do Seu Izaac com os Estúdios Dellarte e o comunicou desse desejo. Izaac disse nunca ter feito participação em banda de música, mas aceitou a dança. O trecho da letra foi gravado no estúdio Herbert Richers:

“A dublagem, como a conhecemos hoje em dia, foi introduzida pela Herbert Richers em 1960, com a ajuda de Walt Disney. Como a legenda na época não era boa, a televisão pequena, em preto e branco e sem definições, resolveram colocar vozes brasileiras nas produções estrangeiras. Hoje, são dubladas, em média, 150 horas de filmes por mês, o que corresponde a setenta por cento da dublagem exibida nos cinemas. Ou seja, a marca registrada Herbert Richers não está presente apenas no que é feito no país, mas em grande parte do que recebemos de fora também”. (texto do site do estúdio)

Agora, toda vez que ouvimos na TV: “Versão brasileira: HERBERT RICHERS!”, damos risada e relembramos que a Validuaté também tem um pedaço do Seu Izzac, do Esqueleto, do Wolverine e é até Herbert Richers!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

1. pedaço de poemas portugueses


Gracias de merci beaucoup para André Leão! Fotógrafo e talento e perícia e interesse como carícia! Sem André Leão esse contato-crescimento-ebulição-de-coração não existiria. Muitas gracias na mesma proporção para o Mike Soares! Cuidadoso da parte técnica deste Alegria Girar. Mike é engenheiro de áudio que grava, mixa, masteriza e também é guitarrista! Trata o som como molda uma viga, um metal, um heavy metal! Mike deu um tratamento de tecnologia espacial russa nessa vinheta. Mike, viva! Audição altiva!

Era tarde toda tórrida de quentura e Teresina. Telefonei para o Ferreira Gullar da casa do Quaresma, que cedeu o telefonema e o perdão para pagamento da conta, mesmo sem sobra de tostão. Eu tremoso de querer ansioso. É atendido o telefone, lá no Rio de Janeiro:

– Alô! (uma voz anasalada suspeitosa de vir do poeta procurado)
– Boa tarde, o Sr. Ferreira Gullar está?! (minha voz gaga de menino grato)
– É ele! (voz anasalada e certeira do poeta que plantou, no meu coração, aquela voz, por disco e televisão)
Daí fomos acertando sua participação e autorização.

Viva Ferreira Gullar! É Poeta! É Linguagem! É Sempre e Ainda!
Brasil e América Latina!

No mesmo dia, escrevi para o Sr. Ferreira Gullar – que foi-é gentileza e recepção calorosa, e respondeu:

"Caro Thiago, autorizo o uso dos versos.
Grato pela homenagem. Abrs. Gullar"

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

HOJE: Validuaté na Casa da Cultura


Jornal O Dia - Torquato - 12/11/2009


Amaral + Paulo Machado + Cia. de Dança + Validuaté

Lançamento do poema concreto Lua Rua, do Paulo Machado
e da revista Hipocampo nº4, do Amaral

Participação da Cia. de Dança Luzia Amélia
e da banda Validuaté

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

VALIDUATÉ NA TV BRASIL


Hoje, dia 12, participaremos da gravação do programa Para Todos da TV Brasil. Será no Clube dos Diários e participarão as bandas Validuaté, Conjunto Roque Moreira e Fullreggae, às 18h! Apareçam e participem! Vai ser uma festa Para Todos mesmo!!!